01 outubro 2013

Andando na chuva

O calor no ônibus sufoca os passageiros cansados por mais uma segunda.
O som no talo, músicas que falam mais do que o normal, reflexões de uma vida não tão normal.
O motorista parece que voa sobre o asfalto torto e descompassado dessa avenida que atravessa esse trecho da grande São Paulo.
A saudade da família aperta, o papo com o cobrador não engrena...80 km/h constantes numa via que pede 60 km/h.
"Tudo bem, não ligo..." - o medo já virou rotina constante, nem impressiona como mais cedo.
A garoa lá fora agora virou chuva e talvez, o sapato que foi engraxado logo cedo perca um pouco do brilho.
A saudade no peito, saudade do menino, saudade da menina, saudade do sossego...
O sinal é dado ao atravessar a ponte, viaduto que liga lugar nenhum ao nada, apenas enfeita mais uma cidade grande...vazia.
E enquanto os carros atravessam a avenida rumo a destinos desconhecidos, desce pensando em chegar em casa sem se molhar tanto.
Olha os rostos ao lado, tão aflitos quanto...e ao parar no farol, com a luz ainda vermelha, atravessa por não ver nenhum perigo aparente na selva de pedra que amedronta até mesmo o mais corajoso dos medrosos.
Olha o ponto de ônibus, cheio de pessoas agoniadas por um espaço seco em meio a chuva e vento...inútil proteção que só dá a falsa sensação de seco.
O caminho é curto, rápido, conhecido...a coragem surge de um momento único, rápido e seco...seco...
E assim seguiu em frente...o caminho já conhecido...e a garoa que já virou chuva.
De repente...silêncio.
Nem mesmo o som dos carros passando ao lado.
Nem mesmo o som dos passos, ora apressados, ora compassados.
Ao começar a subida que leva ao recinto de descanso, o mesmo silêncio.
Reflexões, pensamentos, agradecimentos....agradecimento.
E assim, o silêncio perde espaço para a melodia que não mais soava nos fones de ouvido.
E sim, da combinação entre passos compassados, pingos no asfalto...luzes na rua piscam e apontam o caminho...já conhecido mas que por minutos, parecia nunca antes visto.
Cinco, quatro, três, dois...dois...um.
O som do portão abrindo é o mesmo, a escada molhada, a mesma.
Abre a porta, celular na mão para dizer o boa noite mais necessário de todos...todos já dormem.
Luzes apagadas e uma pequena luz branca acessa printam as palavras dessa pequena grande jornada.
Boa noite...amanhã mais um dia...tomará que não andando na chuva.
 
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